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Racismo e cultura organizacional: como abordar o assunto dentro das empresas?

Pequeno Manual Antirracista, de Djamila Ribeiro, é uma obra indispensável para pensarmos sobre o tema


A questão racial nas organizações é uma pauta super atual e que merece atenção dos gestores e líderes. Embora seja muito exaltado quão enriquecedora a diversidade pode ser, na realidade, ainda estamos a passos lentos para contemplar a todos.


A principal lacuna para uma abordagem mais realista do racismo nas organizações é o esclarecimento sobre o tema. O livro “Pequeno Manual Antirracista”, de Djamila Ribeiro, pode ser um bom norte, pois oferece pontos de vista da autores negros sobre essa questão, e propõe uma reflexão profunda sobre as relações sociais que nos rodeiam nos espaços públicos.



Estatísticas da disparidade

Muito se fala das “barreiras invisíveis” de acesso a oportunidades no mercado de trabalho para grupos historicamente minoritários, como mulheres, pessoas racializadas de diversas origens, e ainda pessoas com deficiência. Essas barreiras estão, principalmente, em questões de acesso à educação, saúde, moradia, mobilidade e também em questões culturais e preconceitos enraizados pelas pessoas.


No Brasil, a maior distorção nesse sentido é em relação a pessoas autodeclaradas pretas e pardas, que representam cerca de 54% da população, de acordo com o IBGE. Segundo o instituto, a maior disparidade entre os grupos raciais se dá quanto ao acesso à renda: entre os 10% da população com os maiores rendimentos, apenas 27,7% das pessoas são pretas ou pardas, enquanto 70,6% são brancos. E ainda, enquanto a renda mensal média das pessoas brancas é de R$ 1.842, as pessoas pretas ou pardas recebem pouco mais que a metade disso, R$ 963 (IBGE 2020).


Tendo em vista esses dados, é flagrante que algo deve ser feito de dentro das organizações para corrigir essa disparidade e assegurar a equidade de oportunidades para todos.



Raízes históricas do racismo no Brasil

No contexto brasileiro, o racismo tem raízes profundas na nossa história: o país foi o último país da América a abolir o trabalho escravo, que durou cerca de 300 anos – mais tempo do que a abolição, proclamada há 134 anos. As pessoas negras trazidas do continente africano à revelia – junto com os indígenas, originários daqui – construíam a maior parte da população de cativos no trabalho forçado.


Após a abolição, a ausência de políticas públicas de inclusão acabou por condicionar os libertos a posições precárias na sociedade e à deficiência de boas condições de saúde e educação. Seus descendentes, hoje, colhem os frutos dessa distorção, convivendo com situações de discriminação, violência e menos portas abertas no mercado de trabalho. Como resultado, temos um gap de representatividade em diversos espaços na sociedade, em especial nos postos mais altos das organizações públicas e privadas.



Pequeno Manual Antirracista, de Djamila Ribeiro

A filósofa, feminista negra, escritora e acadêmica brasileira, mestre em filosofia política pela UNIFESP, Djamila Ribeiro é a autora do livro Pequeno Manual Antirracista, que traz diversas reflexões sobre a temática do racismo na sociedade brasileira, tendo como base a contribuição de outros autores negros que se dedicaram à essa temática. A partir dessa obra, podemos levar algumas lições importantes que podem ser aproveitadas pelas organizações para abordar a questão do racismo no ambiente de trabalho:

#O racismo é uma questão estrutural da sociedade, e não um traço de personalidade individual




Destacamos esse trecho citado no livro:

“Consciente de que o racismo é parte da estrutura social e, por isso, não necessita de intenção para se manifestar, por mais que calar-se diante do racismo não faça do indivíduo moral e/ou juridicamente culpado ou responsável, certamente o silêncio o torna ética e politicamente responsável pela manutenção do racismo. A mudança da sociedade não se faz apenas com denúncias ou com o repúdio moral do racismo: depende, antes de tudo, da tomada de posturas e da adoção de práticas antirracistas.” Silvio Almeida, Racismo Estrutural (2019).

Por essa razão, não adianta uma pessoa apenas afirmar “não ser racista” sem enxergar que a questão passa por toda a sociedade da qual fazemos parte. O racismo estrutural existe e reconhecê-lo é o primeiro passo para empregar esforços em corrigi-lo. Na realidade brasileira, nossa sociedade se constituiu em cima de 300 anos de escravidão e subjugação das pessoas negras, e esse histórico não desaparece completamente em pouco tempo.


Precisamos entender que a nossa sociedade fundamentou uma “hierarquia racial”, na qual as pessoas negras sempre estiveram na base da pirâmide, e os brancos mantiveram seus privilégios nessa realidade. Portanto, não é possível negar o racismo e atribuí-lo a episódios isolados e ao caráter preconceituoso de algumas pessoas, pois ele faz parte da própria estrutura das relações sociais em diversos aspectos.


preciso reconhecer e refletir sobre a branquitude

Desde muito cedo, as pessoas negras são levadas a refletir sobre a sua condição racial. As crianças negras desde pequenas se deparam com situações de preconceito em seu convívio social, o que faz com que elas aprendam logo a valorizar sua negritude como uma maneira de autoafirmação e defesa da sua identidade.


Para muitas pessoas brancas a questão racial nunca é falada, pois ela não costuma ser um problema. Por isso, os brancos não costumam pensar sobre a sua branquitude e todos os privilégios que usufruem na sociedade. Portanto, as pessoas brancas não têm o hábito de refletir sobre o que é pertencer a esse grupo, pois o debate racial é sempre focado na negritude.


Um grande exemplo disso é que a ausência ou a baixa presença de pessoas negras em espaços de poder não costuma causar incômodo ou surpresa em muitas pessoas brancas. A falta de representatividade é algo naturalizado e não costuma chamar a atenção em diversos contextos. Para mudar essa realidade, primeiro é preciso mudar o olhar e questionar a ausência de pessoas negras em, por exemplo, posições de gerência, autores negros em antologias, pensadores negros nas bibliografias dos cursos universitários, atores negros em papel de destaque no audiovisual, entre outras tantas situações corriqueiras.


#Apoie ações afirmativas de diversidade e inclusão

Por conta do racismo estrutural, a população negra tem, estatisticamente, menos condições de acesso à uma educação considerada de qualidade. Portanto, quando falamos do mercado de trabalho, o centro do debate não é sobre capacidade, mas sim sobre oportunidades – e essa é a distinção que separa a discussão da ideia de meritocracia.


A disparidade de oportunidades se revela nos detalhes, por exemplo: um jovem negro que precisa ajudar na renda familiar vendendo pastel em seu tempo livre da escola jamais partirá do mesmo ponto, no quesito ensino, do que um outro garoto branco da mesma faixa etária que passa as suas tardes livres da escola em cursos de idiomas e aulas de natação. No momento em que ambos disputarem uma vaga de universidade ou de emprego no futuro, inegavelmente, o garoto branco tenderá a ter mais preparo para apresentar os conhecimentos requeridos em uma prova de vestibular ou entrevista, como saber falar outro idioma.


As cotas raciais para universidades e concursos públicos, implementadas pela Lei de Cotas de 2012, são consideradas um avanço para a inclusão, embora ainda não sejam o suficiente para resolver completamente o problema da desigualdade estrutural.


Muitas empresas privadas também já lançaram projetos de inclusão dentro de projetos próprios de ações afirmativas, como foi o caso do Magalu em 2020, que ao identificar a pouca presença de pessoas negras em cargos de liderança dentro da empresa, lançou um programa de liderança específico para esse público.



Seja parte da solução hoje!

Levando em consideração todas essas reflexões propostas pela obra de Djamila Ribeiro, entendemos que para transformar a nossa realidade é preciso colocar essas ações em prática.

A Nômade tem orgulho de oferecer projetos voltados para a Inovação, Diversidade e Inclusão para organizações que desejam abordar a questão da diversidade. Por meio da nossa Plataforma de Autoaprendizagem, trabalhamos para ampliação da consciência e transformação de crenças, gerando espaços mais seguros para as pessoas se expressarem, seguindo as boas práticas de ESG. Confira mais informações sobre os nossos serviços de Diversidade Corporativa.


Entre em contato para conversarmos sobre o projeto da sua organização!





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