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GOVERNO E INOVAÇÃO: O QUE O DESIGN TEM A VER COM ISTO?

 

 

 

No início deste ano, políticos das diferentes cidades do país assumiram seus mandatos para governarem nossas cidades pelos próximos 4 anos. Muitos destes fizeram suas campanhas pautando suas propostas nas necessidades urgentes e comuns que atingem as nossas cidades: melhores atendimentos nos postos de saúde, menos burocracias para empreender, escolas melhores, mais segurança e outras tantas que impactam diretamente em nosso cotidiano. Entretanto, há um sentimento comum de que os sistemas burocráticos e os modelos hierárquicos e rígidos que, desde o século XX, estão vigentes mostram-se limitados diante das necessidades de entregar aos cidadãos serviços públicos mais qualificados e assertivos.

 

Por meio dos serviços públicos — escolas, postos de saúde, hospitais, sistemas de coleta de lixo e transporte público, por exemplo — o governo entrega valor, benefícios e se relaciona diretamente com a sociedade. Por serem pontos de contato e de troca entre nós, cidadãos, e o governo, qualquer mudança neste contexto tem impacto praticamente direto e imediato em nossas vidas. Assim, oferecer serviços públicos que melhorem significativamente a qualidade de vida, de uma forma que sejam sustentáveis, é um desafio complexo que tange a todas as cidades do país. Soma-se a isto, mudanças — político, sociais, econômicas, ambientais — que emergem e se aceleram, criando uma realidade de incertezas nas quais os nossos governantes terão que atuar.
 

Governos podem ser centros catalisadores de criatividade e inovação para solução de problemas.

 

 

Se nossa maneira de agir depende de como enxergamos uma realidade, é necessário, então, um novo olhar sobre os serviços públicos a fim de gerar uma nova postura. É preciso inovar no setor público, transcender os paradigmas existentes nos conceitos e formas como os serviços prestados são estruturados e entregues. A resolução para estes desafios complexos depende de respostas emergentes, não prontas. Uma mudança de paradigma capaz de fazer com que governos catalisem seu potencial transformador, produzindo mais e melhor com os recursos que dispõem. Assim, nossos governos, sejam municipais, estaduais ou federal, precisam se colocar no papel dos cidadãos, repensar a forma como interagem com a comunidade e lidam com os desafios públicos para garantir direitos, necessidades básicas e um nível mínimo de bem-estar. Precisam, especialmente, repensarem a forma como convidam a população a participar da criação de sua própria realidade.

 

Considero, aqui, a inovação como um modelo mental que possibilita que governos tenham uma nova abordagem para lidar com diversos desafios que encontram. Inovação como sendo um meio para resolver, solucionar, gerar resultado e implementar ideias que geram resultados positivos para um grupo de pessoas. Um jeito diferente de pensar, melhorar e, se for o caso, criar novos serviços públicos — capazes de resolver desafios sociais e satisfazer as demandas dos cidadãos. Um processo estruturado que ampara a geração de soluções desejáveis, viáveis e sustentáveis para os cidadãos.

 

É preciso enxergar os problemas como oportunidades para inovar, com métodos e ferramentas que facilitam a capacidade do processo em contribuir para o desenvolvimento de serviços públicos de alta qualidade. Assim, a inovação não é um fim em si. Muito menos deve ser compreendida como algo novo ou como uma etapa que só́ é iniciada quando questões básicas de uma organização ou serviço já́ estão resolvidas. Inovar, contrariando muito dos modelos mentais vigentes em nossos governantes, não é luxo nem oportunidade, é uma necessidade. Um processo fundamental capaz de solucionar desde os problemas que dependem de apenas algumas melhorias incrementais — como a reorganização do atendimento nos postos de saúde — até aqueles que demandam uma total ruptura que permitirá, por exemplo, a implementação de um novo conceito de escola, voltado para o desenvolvimento de competências do século XXI.

 

A inovação se faz possível em diferentes esferas do setor público, desde estruturas, relações de trabalho, processos, tecnologias, produtos e serviços. No entanto, o potencial gerador de impacto da inovação ainda não é entendido no Brasil, e muito menos existem processos estruturados que possibilitem que ela aconteça de forma orgânica na maioria das organizações publicas. Enquanto aqui o tema da inovação ainda está em estágio embrionário, com muitas confusões entre boas práticas de gestão ou melhorias na área pública, lá fora, há mais de 15 anos, foi iniciado um movimento que parte da inovação como processo para melhorar os serviços existentes ou criar novas ofertas ao cidadão, liderado majoritariamente por países como a Alemanha, Austrália, Canadá, Dinamarca, Estados Unidos, Finlândia, Holanda, Nova Zelândia, Singapura e, principalmente, o Reino Unido.

 

Nestes países a inovação tem se colocado como a próxima fronteira em termos de avanço do setor público. Em comum, esses governos têm se esforçado em responder aos desafios complexos que enfrentam com uma estratégia fundamentada na inovação como forma de garantir custos menores, maior acesso, alta qualidade e efetividade dos serviços públicos, inclusive por meio da aproximação e integração dos cidadãos à lógica de desenvolvimento e entrega. Alguns destes chegaram a transformar o processo de inovação aplicada aos serviços públicos em política nacional, formando, por exemplo, escritórios intragovernamentais de inovação. Mecanismos que permeiam toda a estrutura, desde o alto escalão até as instâncias governamentais locais, com o objetivo de apoiar e disseminar os vários departamentos e organizações com metodologias, ferramentas e consultorias internas. Mas como o processo de inovação surgiu nesses países? Como o tema ingressou e se fortaleceu na agenda? Quais são as barreiras e oportunidades para a inovação? Quais ferramentas, métodos e capacitações podem estimular e inspirar os gestores públicos a inovarem?

 

Mapa interativo disponibilizado pela Nesta que mapeia organizações que estão trabalhando com design no setor público pelo mundo. Para saber mais acesse aqui.

 

 

Não por acaso, neste cenário da complexidade que requer novas abordagens, o design surge como processo mental que possibilita a inovação, uma abordagem catalisadora fundamental para chegar à solução de problemas, considerado os requisitos do usuário ao encarar problemas sociais e econômicos.

 


O design, tradicionalmente utilizado em países desenvolvidos para promover o desenvolvimento industrial, hoje também

passa a ser reconhecido como alternativa para promover o desenvolvimento social.
  

 

O design cria um ambiente dinâmico, propício à troca de ideias, conexões e inovações. Tem a capacidade de convergir tecnologia, criatividade e pessoas, sendo uma ferramenta potencial única para ajudar a inovar e promover o crescimento econômico e social.

 

Por muito tempo o design foi sinônimo de criação de produtos e, quando muito, estava atrelado a alguma noção de qualidade estética. No entanto, uma retrospectiva cuidadosa no tempo mostra que o design sempre esteve relacionado à inovação, principalmente por sua qualidade de resolver problemas sistêmicos e considerar uma visão holística da realidade, muito mais do que apenas a de produzir objetos. O design deve ser considerado como ferramenta indispensável de inovação pela sua transdisciplinaridade, inserido nas áreas de ciência e tecnologia, na economia, nos transportes, na saúde, etc. Há décadas fala-se da necessidade do design se aproximar das instâncias públicas e dos órgãos governamentais, integrando-se às possibilidades de ferramentas que estes dispõem para enfrentar os problemas cada vez mais complexos de gestão e de políticas públicas. Entretanto, no atual cenário político e econômico, em que caberia investir em design, inovação e aumento da competitividade industrial, o que se tem visto no Brasil, na área do design, é uma constante retração do apoio governamental (não se pode esquecer do dia 1º de dezembro de 2015, em que o Congresso Nacional validou o veto presidencial à regulamentação profissional da atividade no país).

 

O papel estratégico desempenhado hoje pelo design na Europa e na Ásia — incentivado através de programas da comunidade europeia e replicados pelos seus países-membros — tem sido frequentemente desconsiderado nas esferas públicas brasileiras. Até mesmo programas que alcançaram relativo sucesso foram desmobilizados, e sente-se a falta de um instrumento eficaz de gestão das políticas nacionais de design (uma espécie de “agência nacional do design”), como existe em diversos países onde o design é considerado uma ferramenta estratégica imprescindível. O discurso do design como ferramenta para o desenvolvimento (seja este econômico, social, ou um ideal de convergência de ambos) se estabelece no contexto do debate sobre as políticas nacionais de design. Este debate, embora esteja se ampliando nesta última década em nível mundial, ainda é bastante restrito no ambiente acadêmico, com raras publicações, pesquisas e estudos sobre o tema — menores ainda aqui no país.

 

Workshop facilitado pelo Mindlab, da Dinamarca, com intuito de estabelecer uma cooperação entre o setor público e o setor privado para solução de desafios sociais atuais, em Tokyo. Para conhecer mais sobre o Mindlab, clique aqui.

 

 

Política de design é um tema emergente no campo do design, e que tem vindo a suscitar preocupações dos governos em nível mundial. Ela trata-se de um conjunto de princípios estabelecidos por um governo para utilizar o design como alavanca para o desenvolvimento social, econômico, industrial e regional, aplicando suas ferramentas, metodologias e forma de pensar. Avançando nos conceitos, fala-se não mais apenas em políticas de design, mas também no design para as políticas – reconhecendo a importância de ferramentas do design para a construção de entendimento e de maior clareza na formulação de políticas públicas, uma vez que o uso de metodologias e ferramentas do design alteram a complexidade dos processos de tomada de decisão com foco no cidadão.

 

 

A participação, a conexão e a cocriação começam a se constituir como caminhos para o desenvolvimento.

         

 

A utilização de metodologias colaborativas e inclusivas garante que o sistema, como um todo, seja considerado e compreendido, trazendo mais efetividade às políticas públicas elaboradas. A inovação orientada para o design pode resultar em ganhos de eficiência significativos, redução de riscos e um forte retorno sobre o investimento para o setor público.

 

Embora tenhamos alguns casos e princípios de estruturas, com algumas exceções, nossos governos estão muito distantes de terem a inovação como uma bandeira importante e estruturada e, principalmente, de incorporar o processo e o modelo mental da inovação como forma de ajudá-los a oferecer serviços melhores aos cidadãos. Imaginem se pudéssemos passar de um sistema focado nas necessidades para um sistema mais preocupado com potencialidades, explorando as habilidades de cada um e as qualidades do contexto? Se passássemos de um sistema focado na questão financeira para um focado em recursos existentes? Se evitássemos instituições centralizadoras e procurássemos por redes distribuídas? E se focássemos as atenções sobre  cada indivíduo?

          

No Brasil, os estados de Minas Gerais e São Paulo estão puxando esta frente com alguns projetos. O Governo de São Paulo, por meio da Assessoria de Inovação, criou a Rede Paulista de Inovação em Governo, um ambiente físico e virtual no qual os funcionários podem compartilhar experiências inovadoras, voltadas para a melhoria da gestão pública e para o aprimoramento dos serviços prestados à população. O ambiente físico é promovido por meio do inovaDay, um encontro mensal direcionado à troca de experiências de dentro e fora do Governo. Já o ambiente digital oferece um leque de opções para conectar os servidores, além de tutoriais didáticos que oferecem orientações práticas sobre ferramentas e técnicas de administração ou uso da tecnologia. É uma rede de referência com relação ao seu conteúdo e gestão do conhecimento. Já em Minas Gerais, o governo estadual, através da Secretaria do Planejamento, desenvolveu o Plano Mineiro de Desenvolvimento Integrado 2011-2030, promovendo a institucionalização da inovação como um programa estruturador que permeia todos os órgãos da Administração Direta do Estado de Minas Gerais. Para colocar o plano em prática, foram criadas duas iniciativas: as Assessorias de Gestão Estratégica e Inovação em cada Secretaria de Estado e o Núcleo Central de Inovação e Modernização Institucional, responsável pela articulação e troca de informações entre todas as Assessorias de Gestão Estratégica e Inovação.

 

InovaDay: debate ocorrido do mês de novembro que reuniu Patricia Ellen, sócia da McKinsey & Company; Letícia Piccolotto, consultora, professora e coach em Liderança Pública; Alvaro Gregorio, Consultor de Inovação em Governo; Rodrigo Bezerra, Diretor da Escola Fazendária e Roberto Agune, Coordenador da Assessoria de Inovação em Governo.

 

 

Com o contexto atual político, o que o design não poderia fazer pelas nossas prefeituras e pelo nosso país, desenvolvendo um pensamento estratégico e projetando um futuro melhor possível? Este é um panorama fértil que clama à mobilização do design – e principalmente aos designers – para ir de encontro às classes políticas e, em especial, à sociedade como um todo, na busca de construir um futuro em que o foco esteja no cidadão, e não apenas na economia e nas finanças. Acredito nesta convergência entre o design e o setor público por perceber as potencialidades da nossa capacidade criativa e adaptadora indo ao encontro das tantas carências existentes no nosso governo e a criação de soluções latentes.

 

É preciso criar um novo olhar sobre o governo, em que o cidadão, mesmo estando fora da esfera política, encontre em si um papel em como potencializar essa força transformadora. Governo como campo de possibilidade e oportunidade, uma força enorme de transformação social que hoje é subutilizada. Se queremos um país diferente, nosso governo deve ser diferente. O contexto atual apresenta grandes mudanças sociais e econômicas, nas quais o Governo – pelo papel que tem, pela influência que exerce e pelos recursos que administra – precisa repensar sua postura e se redesenhar. O futuro individual e do país passa por decisões que são tomadas pelas esferas de governo e da política. Por fim, o país que queremos amanhã depende de decisões e prioridades escolhidas hoje.

 

 

Esse texto foi escrito pela Patricia Pradebon Copatti e enviado para quem assina o Gulliver, a newsletter da Nômade.

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Quer se aprofundar sobre o assunto?
Seguem algumas referências que foram consultadas para este artigo.

 
A Era do Governo Cidadão: um novo caminho para os serviços públicos no Brasil.
Pesquisa realizada pela agência Tellus, a primeira agência de design de serviços públicos no Brasil, com o objetivo de entender de que forma eles poderiam estimular e criar as condições para que a inovação aconteça no setor público brasileiro. Instituto Tellus, 2012.


Disponível em: http://www.tellus.org.br/relatorios/a_era_do_governo_cidadao.pdf

 

MURPHY, G.; MURPHY, D.; CHRISTIANO, S.S.; SANZ, C. Revisão latino-americada do International Design Scoreboard: levantamento de dados para informação de políticas públicas de design. Strategic Design Research Journal. V. 9, N. 1, p.2-13.


Políticas de Design.Blog do designer e Doutor em Políticas de Design, Gabriel Patrocínio.


Disponível em: http://www.politicasdedesign.com

 

 

 

 

 

 

 

 

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