“só tem dinheiro quem gosta de dinheiro”. Carioca, economista, maior colecionador de gravuras do Brasil e em determinado momento da sua fala que tive o privilégio de escutar na Galeria Subterrânea há umas semanas atrás, esta figura me solta essa frase emblemática. George Kornis é a sua graça. Talvez nunca tivesse escutado alguém falar de forma tão apropriada de dados e projeções de movimentação do mercado de arte. Segundo ele, o mercado internacional de arte movimenta cerca de 20 bilhões de dólares por ano, tendo Nova Iorque e Londres (juntas representam ¾ do todo) como as principais praças financeiras. O Brasil representa cerca de 0,25 a 0,50% de share deste mercado. Ou seja, uma fatia quase insignificante frente ao todo que circula. Como não se trata de um mercado auditado, os dados acabam ficando dúbios, mas é possível fazer uma análise frente ao que é divulgado de algumas fontes que parecem ser confiáveis. Quem constitui esse mercado são grandes galeristas, comerciantes, grandes colecionadores e instituições públicas ou privadas. No Brasil, é a cidade de São Paulo que representa 60% da participação no volume de transações dentro desse mercado da arte. Logo atrás, está o Rio de Janeiro com 20%, segundo George. A “periferia avançada” é o Rio Grande do Sul e Minas Gerais em termos de expressividade. Mas a realidade é que o mercado gaúcho beira a insignificância quando estamos falando de representatividade.
Obras de arte devem ser encaradas como um investimento. Obras de arte também são produtos e, como qualquer produto, ele precisa se enquadrar em um padrão de consumo de determinado nicho para ser bem sucedido. Isso é absolutamente controverso quando entramos em uma leitura sobre como se organiza o mercado profissional da arte, a partir do instante que a figura do galerista, ou algum outro influenciador, começa a tensionar ou direcionar a produção do artista para que seja atendido determinado nicho de consumidores que está sedento por comprar tal perfil de obra. Estaríamos diante de um processo de autoralidade conduzida e isso em termos mercadológicos está perfeito. Porém, esse processo também pode ser motivado através de uma leitura do próprio artista em produzir trabalhos mais comerciais. Essa regulação da dose criativa entre o comercial e o autoral talvez seja a grande busca dos artistas inseridos no mercado profissional de arte. É complexo, porém as variáveis que impactam a produção do artista são identificáveis para que se entenda o sentido disso. É a revelação do artista como marca. E marcas precisam vender. Para vender precisa de uma estratégia e uma adequação de mix de marketing. Damien Hirst é um destes artistas de mercado. Seu site tem até uma loja virtual. É um bom case para entender a curva de mercado que ele alcançou.
Ao traçar um comparativo com o mercado de luxo nacional (um mercado aberto e amplamente bem comunicado, porém restrito e com características de comportamento de compra que se assemelham ao mercado de arte, principalmente pelo atributo “status”) que movimenta cerca de 8 bilhões de dólares, é possível entender o potencial que o mundo da arte proporciona para a economia. Ou seja, o mercado de luxo se vale de ferramentas de marketing e construção de marcas para permanentemente persuadir e ampliar sua base de consumidores, embora restrinja por uma questão óbvia que são os preços elitistas. Hoje, o mercado de arte se promove por total show off, principalmente pela ferramenta chamada Feira de Arte e pelos tradicionais leilões (Sotheby’s, por exemplo) . Existem centenas de feiras que acontecem no mundo. No Brasil, a SP-Arte de 2012 registrou um volume de vendas declarado de 50 milhões de reais. Estima-se que pode ter chego a até 240 milhões de reais através de outras transações realizadas. Com o mercado nacional de arte minimamente aquecido frente ao volume de vendas internacionais, temos um indicador interessante para trabalhar muitas ferramentas e estratégias de marketing aplicadas para realidade deste mercado. A troca de informações e conhecimento sobre artistas é muito pouca para gerar um interesse e possibilitar a ampliação de um público consumidor. Urge ações que trabalhem a arte como produto de consumo e formação de público. Esse mercado tende a ficar fechado nele mesmo por toda uma questão política que se preserva no sistema das artes. Quando vamos ter a oportunidade de entrar em uma exposição de arte e ver o preço da obra logo abaixo da ficha técnica provocando a relação de consumo? Pode pagar com cartão? Cheque pré-datado? E à vista tem quanto de desconto? Tem muito espaço para todos atores deste mercado crescerem e encarar a arte como algo indissociável de um negócio. Artista tem liquidez ? Se não tem, está fora do circuito.
Aron Krause



Olá Aron, parabéns pelo texto e por escrever a respeito! Realmente, falar em valores (em especial de uma forma tão clara) ainda é um tabu no meio das artes. Mas a coisa está mudando, e rápido! Espero que a nossa atuação profissional venha ajudando a construir algumas dessas mudanças – tão fundamentais quanto necessárias! Um abraço, Bruna