DEcrescimento: qual é o limite do sistema?

A corrida acelerada pelo desenvolvimento econômico parece ser a grande oportunidade de inclusão e pertencimento que o sistema capitalista sugere aos países mundanos. A ansiedade generalizada pelo crescimento desenfreado esquece-se de compreender que um sistema de aceleração infinita, não é compatível dentro um mundo finito. Uma série de efeitos colaterais vai se somando ao longo dos anos de expansão de uma economia globalizada e não são contabilizados de forma devida para garantirem uma sustentabilidade do modelo. Os recursos naturais como insumo básico da existência da vida já estão ameaçados em vários sentidos. Não faltam informações que abordam permanentemente essas questões, por ora midiáticas ao extremo. Desempenham seu papel de mostrar para as pessoas que o mundo está sentindo uma pressão indevida e já dá sinais de um horizonte de colapso. A compreensão urgente do resgate de um decrescimento econômico se faz necessário. Latouche há muito tempo atrás falou nisso e merece toda a atenção para a leitura de sistema que é feita.

A indústria que estimula o consumo em um ritmo forte de inovação não consegue frear suas ambições vorazes de competição e busca por uma liderança idealizada. Por outro lado, encontram-se as pessoas da sociedade civil que são classificadas dentro de um paradigma mercadológico por consumidores ou, até mesmo, shoppers. O consumo de qualquer valor simbólico como formador da identidade do sujeito representa uma realidade que constitui as bases de uma sociedade pós-moderna. Não existe consumo desassociado de significados. As pessoas consomem cada vez mais aquilo que faz sentido para elas. As práticas de consumo traduzidas pela aquisição, o uso, a apropriação e a reelaboração, são hiperestimuladas por incansáveis técnicas midiáticas que se renovam para acompanhar novos processos de cognição, que ditam novas formas de interação e experiências desejadas pelas pessoas. Neste sentido, o consumo acaba por satisfazer mais as vontades do que as necessidades. Dentro desse contexto, começam a aparecer pessoas interessadas em restabelecer uma nova lógica de consumo menos materialista e mais sensível a processos de construção de uma sociedade mais colaborativa. Um consumo consciente ou um consumo mais crítico que se proponha a desenvolver um valor compartilhado e distribuído.

A cultura hedonista de massa que as pessoas buscam adequar para suas vidas são confrontadas pela ilusão que também podem levar a um prazer. A isso se atribui a noção de auto-ilusão. No ato do desejo já se dá o consumo. Entretanto, como as pessoas se relacionam com essa nova intenção de desenvolvimento de um mundo mais colaborativo e como começam a aplicar esse sentimento a seu comportamento de consumo?

A noção de valor compartilhado abordada por Michael Porter nos mostra que é necessário reconhecer as necessidades da sociedade para muito além das necessidades econômicas tradicionais. “Trata-se, antes, de aumentar o bolo total do valor econômico e social”, argumenta Porter. Sendo assim, a relação de consumo com as marcas vem se transformando para um novo formato de significação. A sociedade vive um momento de profunda resignificação e sociedades em rede estão emergindo. Redes mais distribuídas do que centralizadas surgem por todas as partes. Além disso, a interatividade entre as pessoas aumenta o que significa uma inteligência coletiva já está se manifestando. Aliado a esse contexto, surge a necessidade e o estímulo de processos de open source que de forma disruptiva, transformam a relação de consumo para processos do it yourself. Por um lado, as pessoas começam a se questionar com relação ao consumo de produtos e serviços que pertencem a marcas que não estão inseridos em um contexto de colaboração com uma sociedade mais equilibrada. Por outro, as pessoas começam a criar novos padrões de consumo altamente influenciados pela cultura do desejo de liberdade, não dependência, transparência e da transformação social positiva para um mundo mais justo, mais humano e menos desigual. Ou seja, as pressões para um novo cenário do consumo aumentam de forma orgânica, natural. É o sistema que se auto-regula.

O consumo não deixará de existir nessa nova relação que está acontecendo e se moldando a cada dia. As marcas começam a buscar um entendimento desse movimento e tentando compor um reposicionamento de mercado mais coerente com esse novo paradigma. As pessoas clamam por uma revisão dos valores que respeite um resgate da convivência social pautada por justiça das relações. As desigualdades, que já são criticadas há muito tempo, começam a ganhar alternativas práticas de uma nova organização de mundo.

 

Aron K.L.

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